Dec 08 2009

Médicos versus Planos de Saúde

Published by joaoqueiroga at 1:00 pm under profissão

Médicos que vivem da clínica particular são aves raríssimas. Mais de 97% prestam serviços aos planos de saúde e recebem de R$ 8 a R$ 32 por consulta. Em média, R$ 20. Os responsáveis pelos planos de saúde alegam que os avanços tecnológicos encarecem a assistência médica de tal forma que fica impossível aumentar a remuneração sem repassar os custos para os usuários já sobrecarregados. Os sindicatos e os conselhos de medicina desconfiam seriamente de tal justificativa, uma vez que as empresas não lhes permitem acesso às planilhas de custos.
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Tempos atrás, a Fipe realizou um levantamento do custo de um consultório-padrão, alugado por R$ 750 num prédio cujo condomínio custasse apenas R$ 150 e que pagasse os seguintes salários: R$ 650 à atendente, R$ 600 a uma auxiliar de enfermagem, R$ 275 à faxineira e R$ 224 ao contador. Somados os encargos sociais (correspondentes a 65% dos salários), os benefícios, as contas de luz, água, gás e telefone, impostos e taxas da prefeitura, gastos com a conservação do imóvel, material de consumo, custos operacionais e aqueles necessários para a realização da atividade profissional, esse consultório-padrão exigiria R$ 5.179,62 por mês para sua manutenção.

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Voltemos às consultas, razão de existirem os consultórios médicos. Em princípio, cada consulta pode gerar de zero a um ou mais retornos para trazer os resultados dos exames pedidos. Os técnicos calculam que 50% a 60% das consultas médicas geram retornos pelos quais os convênios e planos de saúde não desembolsam um centavo sequer.

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Façamos a conta: a R$ 20 em média por consulta, para cobrir os R$ 5.179,62 é preciso atender 258 pessoas por mês. Como cerca de metade delas retorna com os resultados, serão necessários: 258 + 129 = 387 atendimentos mensais unicamente para cobrir as despesas obrigatórias. Como o número médio de dias úteis é de 21,5 por mês, entre consultas e retornos deverão ser atendidas 18 pessoas por dia!

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Se ele pretender ganhar R$ 5.000 por mês (dos quais serão descontados R$ 1.402 de impostos) para compensar os seis anos de curso universitário em tempo integral pago pela maioria que não tem acesso às universidades públicas, os quatro anos de residência e a necessidade de atualização permanente, precisará atender 36 clientes todos os dias, de segunda a sexta-feira. Ou seja, a média de 4,5 por hora, num dia de oito horas ininterruptas.

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Por isso, os usuários dos planos de saúde se queixam: “Os médicos não examinam mais a gente”; “O médico nem olhou a minha cara, ficou de cabeça baixa preenchendo o pedido de exames enquanto eu falava”; “Minha consulta durou cinco minutos”.

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É possível exercer a profissão com competência nessa velocidade? Com a experiência de quem atende doentes há quase 40 anos, posso garantir-lhes que não é. O bom exercício da medicina exige, além do exame físico cuidadoso, observação acurada, atenção à história da moléstia, à descrição dos sintomas, aos fatores de melhora e piora, uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade do paciente. Levando em conta, ainda, que os seres humanos costumam ser pouco objetivos ao relatar seus males, cabe ao profissional orientá-los a fazê-lo com mais precisão para não omitir detalhes fundamentais. A probabilidade de cometer erros graves aumenta perigosamente quando avaliamos quadros clínicos complexos entre dez e 15 minutos.

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O que os empresários dos planos de saúde parecem não enxergar é que, embora consigam mão-de-obra barata – graças à proliferação de faculdades de medicina que privilegiou números em detrimento da qualidade -, acabam perdendo dinheiro ao pagar honorários tão insignificantes: médicos que não dispõem de tempo a “perder” com as queixas e o exame físico dos pacientes, pedem exames desnecessários. Tossiu? Raios X de tórax. O resultado veio normal? Tomografia computadorizada. É mais rápido do que considerar as características do quadro, dar explicações detalhadas e observar a evolução. E tem boa chance de deixar o doente com a impressão de que está sendo cuidado.

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A economia no preço da consulta resulta em contas astronômicas pagas aos hospitais, onde vão parar os pacientes por falta de diagnóstico precoce, aos laboratórios e serviços de radiologia, cujas redes se expandem a olhos vistos pelas cidades brasileiras. Por essa razão, os concursos para residência de especialidades que realizam procedimentos e exames subsidiários estão cada vez mais concorridos, enquanto os de clínica e cirurgia são desprestigiados.

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Aos médicos, que atendem a troco de tão pouco, só resta a alternativa de explicar à população que é tarefa impossível trabalhar nessas condições e pedir descredenciamento em massa dos planos que oferecem remuneração vil. É mais respeitoso com a medicina procurar outros meios de ganhar a vida do que universalizar o cinismo injustificável do “eles fingem que pagam, a gente finge que atende”.

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O usuário, ao contratar um plano de saúde, deve sempre perguntar quanto receberão por consulta os profissionais cujos nomes constam da lista de conveniados. Longe de mim desmerecer qualquer tipo de trabalho, mas eu teria medo de ser atendido por um médico que vai receber bem menos do que um encanador cobra para desentupir o banheiro da minha casa. Sinceramente.

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Fonte: Drauzio Varella

Enviado por Carol The

6 responses so far

6 Responses to “Médicos versus Planos de Saúde”

  1. Leandra Carneiroon 08 Dec 2009 at 2:11 pm

    As operadoras de planos de saúde querem um negócio que dê dinheiro.
    Oe umj negócio só dá dinheiro quando explora a “mais valia” do outro., no caso explora o trabalho do médico. E quem investe dinheiro em tecnologia são os pretadores de serviço, comprando aparelhos novos de tomografia, RM, ou atualizando seu parque tecnológico. Operadoras de plano de saúde não investem em tecnologia.

    Outro ponto:
    Nós médicos temos a cobrança da população e da classe de que aquele que não trabalha DEMAIS não é competente. Definição de felicidade social.
    Trabalhar pra viver ou8 viver pra trabalhar. Eu já fiz minha opção. =D

  2. Leandra Carneiroon 08 Dec 2009 at 2:13 pm

    erros de português e de digitação hehe

  3. anunciaçãoon 08 Dec 2009 at 7:26 pm

    Muito bem colocado o assunto.

  4. Gustavo - Viajar e Pensaron 08 Dec 2009 at 9:12 pm

    Infelizmente nós da Odontologia, estamos entrando no mesmo barco, com um agravante de que o material e equipamento terem um custo que eleva em muito o custoXhora.
    Triste mais é a nossa realidade.

  5. Mateus Cajuion 22 Feb 2010 at 9:36 am

    Esse assunto já está em alta até nas universidades! Eu como um estudante, ainda, me preocupo com as condições de trabalho impostas aos profissionais médicos, impelindo-os à adequação ao sistema, tudo pelo ímpeto capitalista de LUCRAR, e nesse sistema perdemos nós o amor pela profissão, e os usuários do sistema, perdem sua saúde…
    Já é hora de ser dito um basta, é ridículo um médico, que passou vários anos de muito estudo, receber como remuneração aos seus serviços o mesmo valor que um encanador, e mais ridículo ainda é um Médico, que passou vários anos de muito estudo, passar com o cliente 15 min, numa consulta que visivelmente não passa de enrolação… Lamentável.

  6. Leandro Nunes Azevedoon 22 Mar 2010 at 12:53 pm

    Estamos criando uma Campanha Nacional pela Valorização Médica com o fim de protestar contra os disparates que vem ocorrendo em nossa profissão. Procuramos compor uma rede social com o maior número de usuários para a realização de protestos virtuais.
    Convido aos interessados, intregrantes de nossa sociedade civil e médicos, a participarem: doutor.ning.com.
    Abraços,
    Leandro

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