Apr 18 2009
Da velhice…

A medicina tem nos proporcionado mais tempo de vida. Mas até que ponto isto vale a pena? Como diz o Dr. José A. Queiroga: ninguém vive 100 anos, dura 100 anos. Ainda parafraseando Dr. Queiroga: o indivíduo pode viver, durar e vegetar. Destes apenas o primeiro vale a pena. O texto abaixo não expressa uma visão boa ou ruim da terceira idade, mas a realidade. Como disse o intelectual Valter da Rosa Borges: “tema abordado com realismo, embora impróprio para idosos imaturos da terceira idade”. Leiam, reflitam e pensem duas vezes na hora de prolongar o sofrimento a vida de alguém.
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DA VELHICE
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Pois foi assim…
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O ambiente era o mesmo de sempre, um salutar encontro mensal onde velhos amigos traziam reminiscências de um passado longínquo, entremeadas de piadas e gargalhadas sonoras, ou simplesmente se quedavam em fazer comentários sobre os noticiários mais recentes, como sempre eivados de falcatruas e excentricidades de nossos representantes no Congresso, peripécias de um Judiciário por vezes altamente contraditório e ininteligível para um semovente comum, ou críticas a um Executivo no mínimo um tanto ou quanto esdrúxulo e surpreendente.
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De repente, como num vago sonho de ópio (Ah, o meu querido e inesquecível del Picchia…), deixo perpassar lentamente o olhar sobre os circunstantes e percebo-lhes as têmporas e também, não raro, os sincipúcios encanecidos, estes por vezes desérticos e lustrosos ou cobertos de pêlos negros como asas de graúna, privados todavia do seu brilho característico… Torna-se forçoso reconhecer que os meus antigos companheiros de jornada estão ficando velhos. E, entre risos e frases incompreensíveis misturadas ao vozerio confuso, vêm-me à tona as sábias palavras do Eclesiastes, traduzindo simplesmente a milenar sabedoria judaica: “Lembra-te do teu Criador na tua juventude, antes que venham os maus dias e cheguem os anos nos quais não sentirás prazer; antes que escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor da tua vida e voltem as nuvens após o aguaceiro; antes que escureçam os teus olhos nas janelas, não mais possas despertar à voz das aves e embranqueças como floresce a amendoeira; antes que se despedace o copo de ouro e se parta o fio de prata e se quebre o cântaro junto à fonte e se desfaça a roda junto ao poço…” Tal trecho, se me permitem a tergiversação, faz-me lembrar as acerbas críticas de alguns literatos que fustigam impiedosamente as traduções do Livro Sagrado, alegando ter sido o mesmo parcialmente escrito em hebraico antigo, língua destituída de vogais e que, por conseguinte, imprópria para tiradas poéticas…
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E agora, meus amigos, como fugir à brutal revelação da palavra bíblica? Tarefa árdua, difícil, mesmo para um pobre e infeliz agnóstico da minha estirpe. É, meus caros colegas, não há como negar um presente o mais das vezes insípido e um futuro com expectativas no mínimo pouco animadoras. Pensando bem, o que se nos apresentam como vantagens da chamada terceira idade? A gratuidade nos transportes urbanos? O facultatismo concernente ao alistamento eleitoral? O suposto privilégio de atendimento em algumas filas bancárias e casas lotéricas? Covenhamos, é muito pouco… Em contrapartida resta-nos a tarefa pouco gratificante de dar conselhos para os quais nem sempre encontramos ouvidos atentos uma vez que, se bons, seriam vendidos e não dados, como tão bem expressa a clássica sabedoria popular. Por sinal a mesma que nos diz ser a inexorável degradação física, companheira inseparável da idade avançada, compensada pela experiência e a sabedoria de viver. Puro e ledo engano, já nos advertia Coleridge, para quem “a luz que a experiência nos dá é a de uma lanterna na popa que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás…” E quedamo-nos apenas a observar as inúmeras oportunidades perdidas ao longo da existência, lamentando o não termos agido de modo diferente em incontáveis episódios outrora vivenciados. Confirmava-o mais tarde o ator italiano Vittorio Gassmann – jovem, rico, belo e cercado de mulheres lindas – quando nos dizia que a vida somente seria válida se pudesse ser vivida duas vezes, a primeira como ensaio, corrigindo-se na segunda os erros anteriormente cometidos.
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Mas, afinal, o que nos trará o porvir? Segundo Moacyr Porto, para os moços não há problemas uma vez que os caminhos, por mais íngremes e tortuosos que se apresentem nunca terminam, apenas se sucedem. A um médico, para dar um exemplo mais corriqueiro, ao término do curso segue-se-lhe a residência; logo mais, a especialização; depois, o mestrado; o doutorado; a livre-docência… Para os idosos, porém, chegar é não ter mais para onde ir, sobretudo para aqueles que, como eu, já se aproximam do ponto em que quase podem tocar com a mão o horizonte da vida. E o que os espera? No mínimo um dos três últimos alçapões da ponte de Davidson, sem sombra de dúvidas. Lembram-se? Sei que a mesma é por demais conhecida pela maioria dos circunstantes, todavia talvez tenha passado despercebida a algum incauto e não me é custoso redescrevê-la.
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Davidson era um médico inglês que viveu no Canadá e, se não me falha a já gasta e caduca memória, morreu aos quarenta e dois anos. Comparou a vida a uma longa ponte, por sobre a qual teria que passar toda a humanidade. Estava a mesma como que salpicada de fojos e armadilhas outras, as mais variadas, com diversificadas formas e dimensões, pelas quais resvalavam os infelizes seres humanos, mergulhando no que ele convencionou chamar de tenebrosas águas do rio da morte. As causas? Todas aquelas que possam ser lembradas ou engendradas pela mente humana, desde os fenômenos naturais como os cataclismos, as erupções vulcânicas, os furacões, maremotos, ou mesmo, para trazer à tona um toque suave da poesia de Castro Alves, uma lufada do feroz siroco do norte da África… Sem esquecer as guerras, as pestes, as inúmeras infecções da era pré-antibiótica ou, para os que preferem motivos bíblicos, o infanticídio herodiano ou a destruição de Sodoma e Gomorra, sem deixar de lado as matanças ocorridas em Jericó e cidades circunvizinhas à tomada da Terra Prometida, ou o próprio dilúvio. No fim, como já disse, o inevitável deparar com as três últimas guilhotinas, às quais ninguém é dado escapar o câncer, o AVC e o infarto.
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O problema é que neste último meio século a ciência, sobretudo no campo médico, avançou de tal modo que nos deixa estarrecidos. Mulheres retiram uma mama afetada com uma neoplasia maligna e sobrevivem vinte, trinta anos; a descoberta dos hipotensores reduziu de muito os acidentes vasculares; safenados sobrevivem duas ou mais décadas. Lembremo-nos que a expetctativa de vida em nosso país lá pelos idos de 1940 era algo em torno de trinta e oito anos. Hoje, facilmente atingimos os oitenta, perfazendo uma coorte de anciãos que locupletam os supermercados, arrasam as finanças do INSS e ocupam a maior parte dos leitos nas UTIs, não raro obrigando o plantonista a uma dolorosa e constrangedora escolha de Sofia.
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Pois é, meus caros amigos, companheiros e colegas de sofrimento, conseguimos modificar a posição das três últimas e malfadadas armadilhas, colocando-as a pelo menos uns três quilômetros à frente. Sofrimento, disse eu, já que é praticamente impossível dissociar velhice de doença, como aliás já o afirmava o clássico e milenar aforismo latino: Senectus ipsa morbus est. Por vezes chego a pensar que por trás desses espetaculares avanços tecnológicos por parte dos nossos eméritos cientistas há algo, naturalmente profundamente mergulhado nos seus subconscientes, de um recôndito e camuflado sadismo. Talvez queiram eles nos observar, ao nos arrastarmos por aqueles três quilômetros restantes, e deleitarem-se ante nossas reações face às agruras da síndrome dos cinco Is, que sorrateiramente nos espreita. Cinco para os americanos, pois resolvi acrescentar mais quatro, configurando uma ousadia pela qual peço meu humilde perdão.Vejamo-los:
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O primeiro I da maldita síndrome diz respeito ao Intelecto. O pobre-diabo começa a esquecer tudo, até mesmo o nome dos amigos mais próximos, dada a inexorável e impiedosa perda de neurônios. Já nos dizia Romain Roland que o homem, assim como as árvores velhas, começam a morrer pelo topo. Outrora ficávamos caducos; mais tarde, esclerosados; atualmente somos vitimados pelo mal de Alzheimer. Quaisquer que sejam as denominações a degradação é no entanto a mesma, embora algumas pessoas não pareçam temê-la. Meu avô, lembro-me ainda, disse-me uma vez que gostaria de viver muito, juntamente com a esposa, mesmo que chegassem ao ponto de, num acesso de demência senil, atirar mierda um no outro, com perdão do presidente Chávez por lhe surrupiar o termo.
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Tive uma amiga que, por sugestão do seu geriatra, costumava dar umas voltas em torno do quarteirão numa salutar tentativa de um melhor fortalecimento dos músculos, além de evitar uma possível rigidez de articulações. Corria tudo às mil maravilhas até que um dia tropeçou num paralelepípedo. De outra feita, num meio-fio. Mais tarde, no tapete do próprio apartamento. Faltava-lhe apenas a clássica fratura de colo do fêmur ao escorregar no banheiro, já que a impiedosa osteoporose lhe transformaria os ossos, dando-lhes a consistência de meras cascas de ovos. A Instabilidade tornou-se por demais evidente, obrigando-a a uma constante Imobilidade diante da TV.
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Quanto ao quarto I da síndrome costumo apresentá-lo cum grano salis. O diagnóstico por vezes é dado pelo netinho que, olhos grudados na TV, assiste a um Scooby Doo qualquer quando percebe a presença de alguém mais na sala. Não precisa desviar o olhar da tela, pois o simples odor de uréia ou escatol, a depender do tipo da Incontinência lhe faz saber que se trata do querido vovô, a essa altura já sob os cuidados de um bom clínico ou urologista. E quem trabalha com velhos sabe dos cuidados necessários para evitar uma Iatrogenia que, como todos sabem, é a doença causada pelo médico ou pelo esquema terapêutico prescrito.
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Em seguida temos a Impotência, que até um certo ponto se equipara à menopausa. Contudo, para o homem, o problema é bem mais dramático, retirando-lhe a auto-estima, o orgulho, e privando-o enfim de um dos maiores prazeres da vida. É verdade que novos medicamentos melhoraram ou sanaram algumas dificuldades concernentes à disfunção erétil, porém nem todos deles se beneficiam e há um limite inevitável. E a argumentação apresentada por Gide não me convence: “Que importa que eu não possa mais levar a taça aos lábios, se não tenho mais sede”. Raciocínio a meu ver falso, pois a sede persiste. Prefiro pensar, mutatis mutandis, como Adenauer, quando afirmou ter sido Deus injusto ao limitar a inteligência humana sem fazer o mesmo com a estupidez. Numa linha de pensamento paralela poder-Lhe-ia igualmente perguntar: “Tu, que me tiraste a força, por que não fizeste o mesmo com o desejo?”
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Por fim, meus caros amigos, os três últimos Is desta malfadada seqüência. Primeiro o da Inutilidade. Já a experimentaram? De minha parte confesso que sim. De uma feita fui aposentado e passei cerca de dez meses a gozar as supostas delícias do dolce far niente, o qual, a meu ver, deveria substituir a inscrição presente à porta do inferno de Dante onde se lê a clássica advertência: lasciate ogni speranza , voi ch´entrate.
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E para quase encerrar essa funesta seqüência de infortúnios, o Isolamento. Um processo contínuo, cada vez mais intenso, implacável, inevitável. Os amigos, os entes queridos, os parentes mais próximos e até mesmo alguns simples conhecidos começam a desaparecer, uns em ordem cronológica, outros deselegantemente furando a fila, todos entretanto ensejando o advento da temível e insuportável solidão, um dos piores castigos impingidos pelo Todo-poderoso ao ser humano, algo que contribui grandemente para a construção do último e pior dos Is já assinalados, ou seja, o da Infelicidade. E aí pouco interferem ou ajudam os vários ardis ou subterfúgios dos quais lançam mão os idosos em suas quase inúteis tentativas de fuga.
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Por outro lado, num raciocínio talvez mais lógico e coerente, é possível que todos esses elementos tenham sido adredemente preparados por Javé ou Alá – ou mesmo o Deus sive natura de Spinoza e, mais tarde, também de Einstein - para que passemos a suportar, ou mesmo desejar, o advento de um mal supostamente maior, qual o da morte, infelizmente exibida por pintores e escultores de todos os matizes como uma figura sinistra, lúgubre, tétrica, coberta por um manto cinza que permite entrever um rosto escaveirado, e ostentando ainda, à destra, uma ceifadeira impiedosa e cruel. De minha parte, entretanto, tenho dela uma idéia bem diversa, fruto talvez de uma convivência assídua, pacífica e por vezes ansiosamente esperada. Vejo-a, na imensa maioria das vezes, como uma imagem dócil, meiga e carinhosa, capaz de sedar a dor de um paciente e seus familiares com maior eficiência que a de qualquer opiáceo até então usado. Aliás, “que seria da vida se não houvesse a esperança da morte?”…
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José A. Queiroga
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P.S.: Com perdão pelo linguajar anacrônico e ultrapassado. Outrossim, informo ainda que o assunto em tela constituiu uma pequena contribuição ao jornalzinho “O Elo”, òrgão informativo de um grupo de amigos que mensalmente se reúnem num almoço de confraternização, configurando uma espécie de clube cujo nome é por demais sugestivo: “Pé na cova”…





Ótimo texto.
(…)
“Mas a bela juventude é como um sonho frágil,
que dura pouco: sobre a cabeça do homem
logo pende a funesta, a horrível velhice,
que o torna, ao mesmo tempo, disforme e desprezado,
envolve os olhos e a alma, destrói-os e ofusca-os”
sensacional! de uma lucidez educativa sem precendentes. o autor fará falta por aqui, mas deixa um legado brilhante para quem teve a oportunidade de encontrá-lo pelo menos uma vez. aos que não, fica o texto. obrigado por compartilhar.
Pôxa! O cara é, simplesmete , muito realista. Tenho 69 anos, às vésperas dos 70 e penso também como ele, sobre vários aspectos abordadoslk no texto. Faz-se necessário um grande esforço de boa vontade para que se possa aceitar a velhice. Acho mesmo, que disso ninguém escapa. Concordo, sobretudo, com ele, quando se refere às “facilidades” delegadas a essa faixa etária como vantagens compensatórias. Quem trocaria, por exemplo, de livre e espontânea vontade a sua juventude, cheia de vigor para trabalhar e viver os deleites próprios dessa idade, por tudo que é facilitado aos idosos e muito mais? Com certeza, a velhice nos expõe a vários tipos de problemas, inclusive ao da aceitação das mudanças inerentes a esta etapa de nossa vida. Falo à voz da expertiência e só eu sei o quanto isso me custa… Claro, com não vejo outra saída, procuro entender que é um processo que faz parte do ciclo da vida: nascer, crescer, envelhecer e morrer. Fazer o que? É fato consumado. Agora só me resta mesmo, tentar organizar a vida de forma que possa aproveitar, o máximo possível, dentro das minhas
poissibilidades.
Viajo; o que me dá muito prazer, curto literalmente a natureza, meus filhos, aproveito o tempo de aposentada para ler, usufruir das delícias da praia, (o que sempre gostei de fazer) curtir o mar e por aí vai. Mas nada disso me impede de lamentar, de vez em quando, de como seria maravilhoso se a gente nunca envelhecesse e se fosse possível se aposentar com todo o vigor dos trinta e quarenta anos de idade. Além de ter a consciência plena de que daqui por diante, a tendência é ficar cada vez mais exposta às agruras das quais falou o ilustre autor.